RADIO TAJENOJE

Aug 1, 2012

Avivamento - As perspectivas de Jonathan Edwards e Charles Finney

Avivamento - As perspectivas de Jonathan Edwards e Charles Finney

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Por Gilson Santos

Em muitos círculos evangélicos atuais, quando se fala em "avivamento", pensa-se em uma grande campanha evangelística, com várias reuniões especiais, com um convidado especial e com uma música especial. Este é o sentido que se associou a este vocábulo no século XIX. As grandes campanhas evangelísticas de Charles G. Finney (1792-1875), Dwight L. Moody (1837-1899) e Reuben A. Torrey (1856-1928), bem como as de outros evangelistas do gênero, exerceram papel decisivo na sedimentação deste modo de pensar. Para outros, "avivamento" seria um "borbulhar de entusiasmo na igreja", um excitamento, um cantar empolgante, um louvor diferente e, até mesmo, um tipo de histeria emocional seguida de sinais incomuns. No século XX, a idéia de "sinais e maravilhas" passou a integrar substancialmente o cerne do conceito de avivamento.

A palavra "avivamento" (ou reavivamento, do inglês revival) surge desde o século XVII e afirma-se no século XVIII, quando se começava a falar sobre o reavivamento da religião. Embora o vocábulo fosse novo, aqueles que o endossavam entendiam claramente que a doutrina era amplamente encontrada nas Escrituras e na história da Igreja. Por "avivamento" pensava-se num "derramar incomum do Espírito Santo".

Jonathan Edwards e a soberania de Deus no avivamento

Jonathan Edwards (1703-1758) foi um dos grandes líderes do avivamento do século XVIII, que tem sido chamado pelos norte-americanos de "Grande Despertamento". Um estudo sério acerca deste assunto terá de levar em conta o que ele fez e escreveu.

D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) e J. I. Packer, ao escreverem sobre Edwards, entendem que é na questão do avivamento que ele é preeminentemente o mestre. Avivamento é um derramamento do Espírito, e "se vocês quiserem saber algo sobre o avivamento verdadeiro, Edwards é o homem que se deve consultar", arremata Lloyd-Jones.1

Em sua clássica obra A Treatise Concerning Religious Affections (Tratado sobre Afeições Religiosas), Edwards nos fala sobre a atuação do Espírito Santo, dando grande atenção à experiência pessoal.2 O anseio de Edwards em diferenciar a experiência religiosa verdadeira da falsa resultou de sua preocupação pastoral no contexto do avivamento. Ele pregou uma série de sermões sobre 1 Pedro 1.8 tratando do assunto, em 1742-1743. O Tratado resultou da revisão do texto desses sermões para publicação em 1746. Nesta obra, Edwards argumentou que o cristianismo verdadeiro não se evidencia pela quantidade ou intensidade das emoções religiosas, mas por um coração transformado que ama a Deus e busca o seu prazer. Ele faz uma análise rigorosa das diferenças entre a religiosidade carnal e a verdadeira espiritualidade, que toca o coração com a visão da excelência de Deus e liberta o homem do egocentrismo. Edwards lutou em duas frentes: contra os adversários do avivamento e contra os extremistas; contra o perigo de extinguir o Espírito e contra o perigo de deixar-se levar pela carne e ser iludido por Satanás.

Por um lado, tinha que argumentar contra aqueles que descartavam todo o avivamento como histeria irracional; por outro, tinha que argumentar contra aqueles que pareciam pensar que tudo o que aconteceu no avivamento era "de Deus", não importa quão estranho, extremista ou desequilibrado isso fosse (...).

Em sua tentativa de traçar um caminho intermediário entre esses extremos, a um tempo similares e opostos, Edwards confrontou-se com uma série de questões fundamentais.3

Nos seus escritos, Edwards avaliou a experiência religiosa à luz das Escrituras e das suas convicções reformadas. O ponto de partida da sua pregação e da sua teologia foi o Deus soberano, em sua majestade, graça e glória. Edwards incluía uma ênfase na obra soberana e graciosa de Deus, ao tratar do avivamento. Segundo ele, o avivamento é uma visitação divina. É Deus vindo e agindo de maneira poderosamente incomum entre o seu povo. Utilizando a analogia do mar, o avivamento seria como as ondas do mar, que vêm e quebram sobre a praia, e nós podemos visualizar a história constatando essas ondas vindo e quebrando. De fato, a história dos avivamentos seria a história do povo de Deus.

Num avivamento, ou experiência religiosa genuína, o critério principal é este: se quem está no centro das atenções é Deus ou o ser humano. Para que Deus esteja no centro é necessário, em primeiro lugar, que haja nos corações um profundo senso de incapacidade, de dependência de Deus, e de convicção da nossa pecaminosidade. Além disso, é preciso que haja a consciência de que toda genuína experiência religiosa é fruto da atuação do Espírito de Deus, que transforma e santifica os pecadores, capacitando-os a amar e honrar a Deus em suas vidas.

Portanto, todas as teorias de salvação que dão ênfase às obras humanas ou à capacidade humana só desmerecem a grandeza do amor de Deus revelado a nós em Cristo Jesus e tornado real em nossos corações somente pela iluminação do Espírito Santo.4

The Distinguishing Marks of a Work of the Spirit of God (As Marcas Distintivas de uma Obra do Espírito de Deus) é um pequeno mas importante livro de Edwards baseado em um sermão que pregara em Boston, durante o Grande Despertamento.5 Depois do sermão, ele fez alguns acréscimos e publicou o livro em 1741. Trata-se de uma exposição do capítulo 4 da Primeira Epístola de João, texto que nos exorta a provarmos "os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora". De fato, no argumento de Edwards, a palavra "evidência" seria preferível à palavra "marca". Edwards extrai dos escritos do apóstolo João um total de quatorze sinais ou evidências que indicam a presença ou ausência do Espírito de Deus numa pessoa, movimento ou igreja. A seguir, ele oferece cinco conclusões práticas para a igreja, encerrando com sua ênfase característica na humildade em todas as coisas do Espírito. Esta questão lhe era crucial, pois sua igreja fora atingida pelo Grande Despertamento nas décadas de 30 e 40 do século XVIII, e aquele período foi de grande agitação e confusão, à medida que se faziam todos os tipos de reivindicação espiritual.

Em seu livro Jonathan Edwards e o Avivamento Brasileiro, o qual recomendo ao leitor, Luiz Roberto França de Matos (1956-2004), ao analisar os escritos de Edwards, conclui sobre os "princípios úteis para julgar se uma obra espiritual ou movimento religioso efetivamente vem do Espírito". Que princípios são esses? O autor resume-os como segue:

1. Quaisquer manifestações exteriores resultantes de experiências extraordinárias não são um sinal fidedigno de espiritualidade e não asseguram uma obra genuína do Espírito.

2. Uma obra verdadeira do Espírito de Deus produzirá uma mudança radical na natureza de uma alma individual, que irá expressar-se em um comportamento e prática completamente novos, revelando-se progressivamente a imagem de Jesus Cristo implantada no crente.6

Quanto ao avivamento, é ele um período marcante, quando Deus, de forma rápida e impressionante, expande o seu Reino através de um revitalizar da sua igreja; é obra poderosa do Espírito Santo no meio de muita gente ao mesmo tempo. O avivamento é uma intensificação do Cristianismo. Não é um outro tipo de Cristianismo, mas uma intensificação do mesmo quando em tempos normais. Não é diferente em essência; a diferença é de grau e não de tipo. O Catecismo Maior de Westminster, na resposta à pergunta de número 182, diz que o Espírito Santo nos ajuda "operando em nossos corações, e despertando (embora não em todas as pessoas, nem em todos os tempos, na mesma medida) aquelas apreensões, afetos e graças que são necessários...".7 Alguém recorreu à analogia entre uma "chuva normal" e uma "chuva forte". Num contexto de avivamento, os crentes são mais zelosos, pecadores são atraídos, e mesmo os incrédulos que não se convertem, se vêem convencidos da verdade. J. I. Packer diz que a "Escritura aponta para um processo repetido muitas vezes, mediante o qual, seguindo-se à frieza, descuido e infidelidade existentes dentre o povo de Deus, o próprio Deus age soberanamente para restaurar o que estava prestes a perecer". E acrescenta: "E através do transbordamento evangelístico consequente, [Deus] torna a estender ainda mais o reino de Cristo".8

Uma observação importante, que deve novamente ser enfatizada, é que o avivamento vem exclusivamente de Deus. "Porventura, não tornarás a vivificar-nos, para que em ti se regozije o teu povo?" (Sl 85.6). O desejo do salmista está voltado para Deus, pois o homem não pode operar esta façanha. É Deus quem pode vivificar. O avivamento é uma obra soberana de Deus, pois "o vento sopra onde quer" (Jo 3.8). Nós não podemos dar uma ordem para que haja um avivamento, e ele não segue um modelo previamente fixado por qualquer homem. Nós estamos amarrados à misericórdia de Deus. "Pois assim como o Pai ressuscita e vivifica os mortos, assim também o Filho vivifica aqueles a quem quer" (Jo 5.21). Isto não deveria causar-nos desespero, mas fome, um apetite pela visitação de Deus. Deveria nos levar à humilhação. Na compreensão de Edwards, avivamento é algo que acontece, não é algo que se promove. O homem não é o agente; ele é objeto dessa obra do Espírito. Deus é absolutamente soberano em cada dádiva que concede. Isto é tão verdadeiro acerca do avivamento como é de qualquer grande obra redentora. J. I. Packer colocou isto nas seguintes palavras:

O avivamento é Deus demonstrando a soberania de sua graça. Avivamento é inteiramente obra da graça, pois sobrevém a igrejas e cristãos que merecem apenas julgamento; e Deus o faz acontecer de maneira a mostrar que sua graça foi decisiva nele. Os homens podem organizar convenções e campanhas e buscar a bênção de Deus sobre elas, mas o único organizador dos avivamentos é Deus, o Espírito Santo. Repetidas vezes, o avivamento tem vindo de maneira súbita, irrompendo frequentemente em lugares obscuros, através do ministério de homens também obscuros. Na verdade, ele vem em resposta à oração, e onde ninguém orou é provável que também ninguém seja avivado; entretanto, a maneira pela qual a oração é respondida será de forma a enfatizar a soberania de Deus como a única fonte de avivamento, mostrando que todo o louvor e toda a glória precisam ser dados somente a ele.9

Iain Murray, em seu excelente livro Pentecost Today, chama a atenção para o fato de que a soberania de Deus no avivamento é revelada em que Ele é soberano nos instrumentos que se propõe utilizar neste sentido, em seus propósitos no avivamento, e com relação ao tempo quando o avivamento começa.10 Roberts & Gruffydd, em seu livreto Avivamento e seus Frutos, quando se referiram ao avivamento de 1762, no País de Gales, escreveram:

Avivamento, por definição, é o próprio princípio de vida da igreja. O poder que produz a vida é o próprio princípio de sua vida. O poder que traz à vida é o poder que sustém a vida. A igreja como um corpo de crentes permanece numa contínua necessidade do vivificante Espírito de Deus.11

Evans observa que "um dos fatos mais coagentes e convincentes que serve para demonstrar a soberania do Espírito Santo em instaurar reavivamentos é a maneira simultânea de manifestar Sua operação em vários lugares e pessoas".12 E o mesmo autor salienta o papel da oração. Não obstante ser obra graciosa e soberana, o avivamento sempre vem através da oração. Oração intensa e persistente. A correta compreensão da doutrina da soberania de Deus não implica em passividade da parte do povo de Deus. Edwards colocara isto da seguinte maneira:

Quando Deus tem algo muito grande para realizar em favor da sua igreja, a vontade dele é que isso seja precedido pelas orações extraordinárias do seu povo, segundo manifestado por Ezequiel 36.37... E é revelado que, quando Deus está para realizar grandes coisas para a sua igreja, ele começará derramando de maneira notável o espírito de graça e de súplicas (Zc 12.10).13

"Aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, faze-a conhecida; na tua ira, lembra-te da misericórdia" (Hc 3.2). Isaías 64 é uma oração muito própria em favor de um avivamento. Também o salmista ora: "Vivifica-me, SENHOR, por amor do teu nome; por amor da tua justiça, tira da tribulação a minha alma" (Sl 143.11). Além disto, a pregação da Palavra de Deus é instrumento de Deus para reavivar seu povo. O SENHOR utiliza sua própria Palavra (Sl 119.25; Ez 37.9). O Salmo 119 descreve a Palavra de Deus como o meio para o reavivamento do povo de Deus: "Estou aflitíssimo; vivifica-me, SENHOR, segundo a tua palavra" (Sl 119.107). O impulso do avivamento há de partir do Senhor, como também o poder que acompanha a Palavra deve ser atribuído a Ele. Enfim, se pudermos falar de uma metodologia em Edwards, esta era, basicamente, orar por avivamento e expor a palavra da Escritura.

Charles Finney e a "ciência do avivamento"

A definição que Edwards ofereceu para avivamento sofreu grande revisão no século XIX. Um dos mais influentes líderes do chamado "Segundo Grande Despertamento" foi Charles Finney. Ele escreveu um livro em 1838 chamado Reavivamento da Religião.14 De forma contrária a Jonathan Edwards, Finney fez o avivamento repousar decisivamente sobre o homem. No livro Charles Finney e a Secularização da Igreja, Jadiel Martins Sousa (1964-2002) observa com muito acerto que "em algum sentido, pode-se dizer que Finney foi uma reação a Edwards, uma vez que o calvinismo representado por este foi repudiado e relegado à condição de fantasma por aquele".15 Finney argumentou que podemos alcançar o avivamento simplesmente utilizando adequadamente os meios corretos. No raciocínio de Finney, "orar pelo reavivamento religioso e deixar de empregar qualquer outro meio, é tentar a Deus".16 E na sua argumentação subsequente, estes meios recebem grande ênfase. A analogia que ele utilizou foi a de um fazendeiro à espera de uma colheita. Ele ara, irriga e prepara o seu campo... E à medida que ele faz essa obra, a colheita inevitavelmente acontece. Assim, o avivamento é como uma ciência. Em sua biografia de Finney, V. Raymond Edman falou sobre "a ciência do avivamento" - de fato, o título da obra em português é Despertamento: A Ciência de um Milagre.17

Avivamento é tido comumente como um ato da soberania divina, outorgado pelo Deus todo-poderoso segundo sua vontade, sob sua direção. O homem, no caso, é considerado inteiramente incapaz de promover ou impedir semelhante manifestação do poder soberano. A evidência da experiência cristã não confirma a exatidão de tal conceito, e a verdade é que parece concludente haver muito que os crentes devem fazer na preparação e promoção do verdadeiro avivamento (...).

Finney é explícito e exigente na sua explicação de que um avivamento espiritual, como ele o chamava, "não é milagre", mas antes "o resultado do emprego acertado dos meios apropriados".18

E o autor cita o próprio Finney:

Avivamento não é milagre, nem depende de milagre, em nenhum sentido. É resultado puramente filosófico do emprego acertado dos meios comuns, tal como qualquer resultado que se obtenha empregando métodos apropriados. Pode haver um milagre entre suas causas antecedentes, ou pode não haver. Os apóstolos empregavam milagres simplesmente como meios de chamar a atenção para sua mensagem e de estabelecer a autoridade divina dessa mensagem. Mas o milagre não era o avivamento...

Afirmei que o avivamento é o resultado do emprego acertado dos meios adequados. Os meios que Deus determinou para a operação de um avivamento, sem dúvida, possuem tendência natural para produzir um avivamento, senão Deus não os teria determinado. Mas, conforme todos sabemos, os meios não produzirão um avivamento sem a bênção de Deus. É-nos impossível dizer que não há a mesma influência ou ação direta da parte de Deus para produzir uma colheita de cereais ou para promover um avivamento...

Suponhamos que um homem fosse pregar essa doutrina entre agricultores, com referência à plantação de cereais. Diga-lhes ele que Deus é soberano e lhes concederá uma colheita somente quando lhe aprouver; que arar a terra, semear e cultivar como quem espera uma colheita, está muito errado; é tirar a obra das mãos de Deus, é interferir na sua soberania, é labutar com suas próprias forças; que não existe, entre os meios e os resultados, nenhuma ligação de que possam depender. E suponhamos que os agricultores aceitassem tal doutrina. Ora, poriam o mundo a morrer de fome. Pois os mesmos resultados advirão se a Igreja se deixar convencer de que a expansão do evangelho é matéria misteriosamente sujeita à soberania divina, que não existe conexão entre os meios e o fim....

Creio firmemente que, caso pudéssemos saber todos os fatos, verificaríamos que, quando os meios determinados são usados acertadamente, as bênçãos espirituais são alcançadas com maior uniformidade que as temporais.19

Em resumo, este é o pensamento de Finney acerca do avivamento. E parece que não se alterou substancialmente, embora alguns autores identifiquem alguma mudança em suas últimas correspondências. Pelo final da vida de Finney, os sinais do avivamento vinham declinando. Ele concluía que, se para trazer o avivamento bastava utilizar os meios corretos, a mesma lógica deveria aplicar-se para manter o avivamento. Entretanto, por alguma razão, essa lógica não se verificava na realidade ao seu redor. Ele sentiu a impossibilidade de manter o avivamento pelo esforço humano, e em suas cartas teria concluído que atribuiu muito da obra ao homem. À luz disto, podemos compreender porque Iain Murray conclui que a inevitável tendência da visão de Finney é que, embora espere encorajar a diligência e os sinceros esforços práticos, "ela irá, contudo, cedo ou tarde, produzir desencorajamento". No final das contas, nesta visão, não há avivamento se a desobediência continua a prevalecer, pois é a obediência humana que assegura o avivamento.20

Efetivamente, Finney estava reagindo a uma situação que considerava grave. Além disso, ele era alguém muito interessado em resultados. Para ele, a única forma de afirmar a veracidade de um método era sua eficácia em atingir alvos propostos. O fato de ter experimentado avivamento e ter se concentrado em seus efeitos visíveis deu a Finney a oportunidade de desenvolver sua tese da produção do avivamento. Nela há uma enorme confiança no caráter natural dos poderes da própria mente que são despertados e excitados pela palavra dirigida de forma clara à consciência. Embora houvesse dito que "os meios não produzirão um avivamento sem a bênção de Deus", de alguma maneira, em sua lógica matemática e forense, e promovendo alguma confusão entre causa e efeito, o avivamento ficou reduzido a uma ciência. Numa observação dos escritos de Finney a este respeito, uma leitura superficial dos títulos já é suficiente para perceber sua tese: os títulos sugerem ação exclusiva do homem e apontam para resultados seguros. O avivamento é, pois, o resultado do despertamento dos poderes da consciência por meio das várias técnicas, que passaram a ser exaustivamente empregadas. Assim nasceu o "avivalismo". A definição de Finney prevaleceu entre a maioria dos cristãos evangélicos desde então, e "avivamento" e "metodologia" passaram a caminhar juntos, e com grande detrimento da teologia. Fato, porém, é que a metodologia de Finney era, clara e inescapavelmente, uma expressão de sua teologia.

Jadiel Martins Sousa resume bem tudo isto:

Até os dias de Finney, a Igreja Cristã estava relativamente familiarizada com o fenômeno do avivamento. Vários períodos marcados por grande despertamento espiritual, desde a Reforma do século dezesseis, já haviam ocorrido. Mas a partir do ano 1800, no período do chamado Segundo Grande Despertamento, algo novo começava a ser notado. As manifestações emocionais e as expressões corporais, que já eram conhecidas dos outros períodos de avivamento, ganharam uma nova dimensão. Passavam a ser não apenas sinais secundários ou adereços presentes, mas se tornavam praticamente a essência do avivamento. Se antes essas manifestações eram algo a ser administrado, filtrado e julgado à luz da Palavra de Deus e de seus próprios frutos, agora elas eram buscadas, estimuladas e promovidas. Além disso, havia o pensamento de que todas as coisas relacionadas ao avivamento eram possíveis de serem promovidas pelo homem. Nesse contexto, o avivalista era tão importante quanto o avivamento, o evangelista tão importante quanto o evangelho.

Uma série de adornos foram acrescentados ao fenômeno do avivamento, como, por exemplo, os acampamentos, de tal forma que se acreditava ser impossível que o avivamento ocorresse fora desse ambiente meticulosamente preparado pelo homem. Esse era o novo perfil do avivamento do início do século XIX. O avivamento não era mais um fenômeno surpreendente, determinado pela soberania de Deus e executado livremente por ele. Já não era mais uma visitação especial na qual Deus restabelecia o vigor de seu povo trazendo nova disposição àqueles que estavam moribundos. O avivamento passava a ser um movimento terreno, um programa da igreja, algo planejado e executado pelos homens. Era um movimento ao qual as pessoas aderiam ou se opunham. Surgia o reavivalismo, do qual Finney se tornou o principal representante.21

Alguns líderes cristãos piedosos e operosos, contemporâneos de Finney, e que também estavam sob o impacto de uma grande visitação de Deus, se opuseram ao seu novo conceito e às suas "novas medidas". Tais homens não eram negligentes quanto aos deveres cristãos, mas entendiam que o avivamento dependia da soberania de Deus. Era ele quem determinava quando e onde ocorreria um derramamento especial do seu Espírito. Havia um elemento de surpresa no avivamento. Não era possível nem mesmo estabelecer um modelo fixo de avivamento; Deus se reserva o direito de agir de formas variadas, embora algumas marcas estejam geralmente presentes.

William Sprague (1795-1876) foi durante quarenta anos pastor da Igreja Presbiteriana em Albany, New York. Ele testemunhou um período em que milhares de homens e mulheres foram convertidos. Sendo contemporâneo de Charles G. Finney, Sprague escreveu em 1832 um livro chamado Lectures on Revivals of Religion (Conferências em Avivamento). De onde procedem tais avivamentos da religião? De onde eles vêm? Sprague põe isto da seguinte maneira:

Em todo avivamento nós somos distintamente conduzidos a reconhecer a soberania de Deus. Assim como isto é verdade e pode ser percebido na influência pela qual uma única alma é convertida, certamente não é menos manifesto nessas copiosas chuvas de influência pela qual são convertidas centenas de pessoas. É Ele quem causa isto. É Ele quem faz chover em uma cidade e não em outra. É Ele quem dirige o movimento dessas nuvens no mundo espiritual, das quais descem as bênçãos de reavivar e acelerar a graça. "O vento sopra aonde quer; e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo que é nascido do Espírito». Assim, igualmente, é todo avivamento da religião.22

Uma grande necessidade

A idéia completa de avivamento parece que se tornou estranha a muitos bons cristãos. Isto se deve a um sério equívoco na compreensão das Escrituras, e a uma lamentável ignorância da história da Igreja. Visto que em nosso tempo este termo é utilizado para uma cruzada evangelística ou para alguns eventos planejados, o significado original tornou-se quase inacessível para a maioria dos cristãos.

Precisamos ser conduzidos a um grande senso de nossa própria indignidade e insuficiência, e que seja criado dentro de nós um correspondente desejo pela manifestação da glória e do poder do SENHOR. O "seu braço não está encolhido".

As épocas de avivamento trazem um profundo sentimento de que sempre se está diante dos olhos de Deus; as coisas espirituais tornam-se sobejamente reais, e a verdade de Deus se torna irresistivelmente poderosa, tanto para ferir quanto para curar; a convicção de pecado torna-se intolerável; o arrependimento é profundo; a fé desabrocha forte e firme; a compreensão espiritual cresce depressa e aguda; e os novos convertidos amadurecem em período de tempo bem curto. Os cristãos tornam-se destemidos no testemunho e incansáveis no serviço do seu Salvador. Eles reconhecem a sua nova experiência como um verdadeiro antegozo da vida do céu, onde Cristo se lhes revelará tão plenamente que jamais serão capazes de deixar, dia e noite, de cantar seus louvores e fazer sua vontade. A alegria transborda (Salmo 85.6; 2 Crônicas 30.26; Neemias 8.12, 17; Atos 2.46,47; 8.8), abundando uma generosidade cheia de amor (Atos 4.32).23

Em 1992, ao apresentar a tradução em português do livro Avivamento, de D. M. Lloyd-Jones, o editor expressou-se da seguinte maneira:

Ao considerarmos a condição espiritual do mundo - e especialmente a do Brasil - nesta última década do século vinte, não hesitamos em afirmar que a profunda convicção dos responsáveis desta editora é que não há assunto de maior importância e urgência do que o deste livro.

Não vemos nenhuma possibilidade de uma mudança radical, benéfica e duradoura neste grande país à parte de uma visitação poderosa do Espírito Santo.24

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Notas:
1 - J. I. Packer., Entre os Gigantes de Deus; Uma Visão Puritana da Vida Cristã. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996, 389pp. e D. M. Lloyd-Jones, Os Puritanos; suas origens e seus sucessores. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, 432pp.
2 - Cf. Jonathan Edwards. A Genuína Experiência Espiritual. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, 116pp.
3 - N. R. Needahm. Introdução ao livro A Genuína Experiência Espiritual, op. cit, p. 9.
4 - Alderi de Souza Matos. Avivamento nos Dias de Jonathan Edwards; relevância atual.Veja aqui!
5 - Cf. Jonathan Edwards. A Verdadeira Obra do Espírito; sinais de autenticidade. São Paulo: Vida Nova, 1992, 94pp.
6 - Luiz Roberto França de Mattos. Jonathan Edwards e o Avivamento Brasileiro. São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 110.
7 - Catecismo Maior de Westminster. Pergunta 182. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 134. Itálicos meus.
8 - J. I. Packer. Na Dinâmica do Espírito; Uma avaliação das Práticas e Doutrinas. São Paulo: Vida Nova, 1991, pp. 238 e 240.
9 - Idem, p. 250.
10 - Iain H. Murray. Pentecost Today?; The Biblical Basis for Understanding Revival. Carlisle, Pensilvânia: Banner of Truth, 1998, pp. 70-74.
11 - Emyr Roberts & R. Geraint Guffydd, apud John Armstrong. Avivamento. O quê e por quê? São Paulo: Editora Fiel, s.d., p. 3. Itálicos meus.
12 - E. Evans. Reavivamentos; sua origem, progresso e realizações. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, s.d, p.8.
13 - Jonathan Edwards. Works. Ed. W. Goold. London: Banner of Truth, 1967, 4:518.
14 - Para uma leitura da obra de Finney acesse online aqui! Cf. Garth M. Rossel & Richard A. G. Dupuis. Memórias Originais de Charles Finney. São Paulo: Editora Vida, 1986, 512pp.
15 - Jadiel Martins Sousa. Charles Finney e a Secularização da Igreja. São Paulo: Edições Parácletos, 2002, p. 68. Esta obra atualmente é publicada e distribuída por Editora Fiel.
16 - Charles Finney. Uma vida Cheia do Espírito. Venda Nova (MG): Editora Betânia, 1980, p. 39.
17 - V. Raymond Edman. Despertamento: A Ciência de um Milagre. Venda Nova (SP): Editora Betânia, 1976, 161pp. O título da obra em inglês é Finney Lives On (Finney Ainda Vive).
18 - Idem, pp. 61-62.
19 - Ibid,. pp. 63-64
20 - Murray, op. cit., p. 29.
21 - Sousa, op. cit., pp. 45-46.
22 - William B. Sprague. Lectures on Revivals of Religion. London: The Banner of Truth Trust, 1959, 287pp, e Appendix 165 pp. Acesse online aqui!
23 - Packer, op. cit., p.250.
24 - William Barkley. "Nota dos Editores", in: D. Martyn Lloyd-Jones. Avivamento. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1992, p. 7.

Fonte:  Editora Fiel

DEFINIÇÃO DE IGREJA


DEFINIÇÃO DE IGREJA 

 a) No Novo Testamento a palavra "Igreja" é traduzida da palavra grega "ekklesia", que significa um grupo de indivíduos chamados para formar uma reunião ou assembleia. 


- Em Actos 7:38, Estêvão usou a mesma palavra para descrever Israel no deserto. 


- E também usada no cap. 19:32, 39 e 41 para descrever o tumulto gentílico em Éfeso. Mas no Novo Testamento a palavra é mais vulgarmente usada para descrever um grupo de crentes no Senhor Jesus Cristo. 


- Assim, Paulo fala da Igreja de Deus, que o Senhor resgatou com o Seu próprio Sangue" (Actos 20:28). 


- Na sua primeira Epístola, o grande apóstolo divide o mundo em três grupos: Judeus, Gentios e a Igreja de Deus (1Co. 10:32). 


- Em 1 Cor. 15:9, o apóstolo faz referência aos grupos de crentes que ele perseguiu antes da sua conversão. 


b) A Igreja não é uma organização, mas um organismo. Não é uma mera instituição mas uma unidade viva. E a comunhão de todos os que nasceram de novo e participam da vida de Cristo e, consequentemente, estão unidos uns aos outros pelo Espírito-Santo. E uma simples comunhão de pessoas sem carácter de instituição humana. 


c) No Novo Testamento há muitos títulos descritivos da Igreja: estes títulos devem ser estudados separadamente, se quisermos obter uma melhor compreensão da Igreja. 


Os títulos que mais se destacam, são os seguintes: 


1.º- Um REBANHO (João 10:16). 


- A nação Judaica era designada por "um aprisco". A Igreja por "um rebanho". 


- No capítulo 10:16 o Senhor Jesus diz: "Tenho outras ovelhas que não são deste aprisco (Israel); também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor". 


- Na palavra "rebanho" encontramos o símbolo dum grupo de crentes, vivendo em comunhão uns com os outros, sob o carinho e protecção do Bom Pastor, dando ouvidos â Sua voz e seguindo-O. 


2.º- LAVOURA DE DEUS (1 Cor. 3:9) 


- A Igreja de Deus é o Seu campo, no qual tenciona produzir fruto para Sua glória. Envolve o pensamento da frutificação. 


3º - EDIFICIO DE DEUS (1 Cor. 3: 9). 


- Esta expressão revela-nos Deus como edificador. Ele acrescenta pedras vivas à Igreja. E pois de suma importância que as nossas vidas se consagrem à realização deste projecto divino. 


4.º - O TEMPLO DE DEUS (1 Cor. 3:16). 


- A palavra "Templo" traz imediatamente à nossa mente a ideia de adoração, e faz-nos lembrar do facto, que neste mundo, Deus só é adorado pelos membros da Sua Igreja. 


5º. CORPO DE CRISTO (Efésios 1: 22 e 23). 


O Corpo é o meio pelo qual o indivíduo se revela. Semelhantemente, o Corpo de Cristo é o meio pelo qual Ele se revela ao mundo. Desde que o crente aprenda esta verdade, nunca mais considerará de somenos importância a Igreja de Cristo. Consagrar-se-á incondicionalmente tendo em vista os altos interesses do Corpo de Cristo. 


6.º - UM NOVO HOMEM (Efés. 2:15). 


Salienta-se aqui a ideia duma nova criação. A maior barreira que dividia os homens era a que existia entre Judeus e Gentios, a qual foi abolida dentro da Igreja; assim Deus fez dos dois um novo homem. 


7º - MORADA DE DEUS (Efés. 2 : 22). 


Esta expressão revela-nos uma grande verdade: Deus agora habita na Igreja espiritual, em vez de habitar num tabernáculo ou templo material, como acontecia nos tempos do Velho Testamento. 


8.º- A NOIVA DE CRISTO (Efésios 5: 25-27; II Cor. 11: 2). 


Sob este aspecto realça-se a ideia do afecto: "Maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a Si mesmo se entregou por ela, para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra, para a apresentar, a Si mesmo, igreja gloriosa, sem mácula nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível". 


- Se Cristo amou a igreja e se entregou a Si mesmo por ela, é evidente que a igreja deve dedicar todo o seu amor a Cristo. 


9.º CASA DE DEUS (1 Tim. 3:15). 


A casa ou família fala-nos de dois princípios: ordem e disciplina. A ordem é sugerida nesta passagem: "Para que saibas como convém andar na Casa de Deus"; e a disciplina nesta outra: "Porque já é tempo que comece o julgamento pela Casa de Deus" (1 Pedro 4:17). 


10.º A COLUNA E FIRMEZA DA VERDADE (1 Tim. 3: 5). 


- Em tempos idos as colunas eram usadas, não só para suportar a parte superior do edifício, mas também para se afixarem anúncios. Era um meio de propaganda. 


- A palavra "firmeza" significa baluarte ou reduto de defesa. Assim verifica-se que a igreja foi estabelecida por Deus para proclamar, sustentar e defender a verdade. Portanto, podemos afirmar com toda a segurança que, se os crentes desejam conformar-se com o propósito e a vontade de Deus revelados na Sua Palavra, devem dedicar os seus esforços tanto à expansão do Evangelho como ao progresso espiritual da Igreja. 


- Há quem diga que a sua vocação é pregar o Evangelho, e negligenciam tudo o que diz respeito à Igreja. 


Quem assim procede, é porque ainda não notou que o apóstolo Paulo tinha um duplo ministério: 


a) anunciar entre os gentios, por meio do Evangelho, as inesgotáveis riquezas de Cristo;


 b) demonstrar a todos qual seja a dispensação do ministério, isto é, estabelecê-los nas verdades acerca da Igreja (Efésios 3:8,9). 




 Por William McDonald

95 TESES DE LUTERO


95 TESES DE LUTERO 


 Aqui está uma sintese das 95 teses do grande reformador protestante. 


- O objetivo desta postagem, é levar o leitor a uma reflexão: Debate para o Esclarecimento do Valor das Indulgências feito por Doutor Martinho Lutero em 31 de outubro de 1517. 


-  Por amor à verdade e no empenho de elucidá-la, discutir-se-á o seguinte em Wittenberg, sob a presidência do Reverendo Padre Martinho Lutero, mestre de Artes e de Teologia e professor catedrático desta última, naquela localidade. 


- Por esta razão, ele solicita que os que não puderem estar presentes e debater conosco oralmente o façam por escrito. Em nome do nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. 


1. Ao dizer: "Fazei penitência", etc. [Mt 4.17], o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo quis que toda a vida dos fiéis fôsse penitência. 


2. Esta penitência não pode ser entendida como penitência sacramental, isto é, da confissão e satisfação celebrada pelo ministério dos sacerdotes. 


3. No entanto, ela não se refere apenas a uma penitência interior; sim, a penitência interior seria nula, se, externamente, não produzisse toda sorte de mortificação da carne. 


4. Por conseqüência, a pena perdura enquanto persiste o ódio de si mesmo (isto é a verdadeira penitência interior), ou seja, até a entrada do reino dos céus. 


5. O papa não quer nem pode dispensar de quaisquer penas senão daquelas que impôs por decisão própria ou dos cânones. 


6. O papa não pode remitir culpa alguma senão declarando e confirmando que ela foi perdoada por Deus, ou, sem dúvida, remitindo-a nos casos reservados para si; se estes forem desprezados, a culpa permanecerá por inteiro. 


7. Deus não perdoa a culpa de qualquer pessoa sem, ao mesmo tempo, sujeitála, em tudo humilhada, ao sacerdote, seu vigário. 


8. Os cânones penitenciais são impostos apenas aos vivos; segundo os mesmos cânones, nada deve ser imposto aos moribundos. 


9. Por isso, o Espírito Santo nos beneficia através do papa quando este, em seus decretos, sempre exclui a circunstância da morte e da necessidade. 


10. Agem mal e sem conhecimento de causa aqueles sacerdotes que reservam aos moribundos penitências canônicas para o purgatório. 


11. Essa erva daninha de transformar a pena canônica em pena do purgatório parece ter sido semeada enquanto os bispos certamente dormiam. 


12. Antigamente se impunham as penas canônicas não depois, mas antes da absolvição, como verificação da verdadeira contrição. 


13. Através da morte, os moribundos pagam tudo e já estão mortos para as leis canônicas, tendo, por direito, isenção das mesmas. 


14. Saúde ou amor imperfeito no moribundo necessariamente traz consigo grande temor, e tanto mais, quanto menor for o amor. 


15. Este temor e horror por si sós já bastam (para não falar de outras coisas) para produzir a pena do purgatório, uma vez que estão próximos do horror do desespero. 


16. Inferno, purgatório e céu parecem diferir da mesma forma que o desespero, o semidesespero e a segurança. 


17. Parece desnecessário, para as almas no purgatório, que o horror diminua na medida em que cresce o amor. 


18. Parece não ter sido provado, nem por meio de argumentos racionais nem da Escritura, que elas se encontram fora do estado de mérito ou de crescimento no amor. 


19. Também parece não ter sido provado que as almas no purgatório estejam certas de sua bem-aventurança, ao menos não todas, mesmo que nós, de nossa parte, tenhamos plena certeza. 


20. Portanto, sob remissão plena de todas as penas, o papa não entende simplesmente todas, mas somente aquelas que ele mesmo impôs. 


21. Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do papa. 


22. Com efeito, ele não dispensa as almas no purgatório de uma única pena que, segundo os cânones, elas deveriam ter pago nesta vida. 


23. Se é que se pode dar algum perdão de todas as penas a alguém, ele, certamente, só é dado aos mais perfeitos, isto é, pouquíssimos. 


24. Por isso, a maior parte do povo está sendo necessariamente ludibriada por essa magnífica e indistinta promessa de absolvição da pena. 


25. O mesmo poder que o papa tem sobre o purgatório de modo geral, qualquer bispo e cura tem em sua diocese e paróquia em particular. 


26. O papa faz muito bem ao dar remissão às almas não pelo poder das chaves (que ele não tem), mas por meio de intercessão. 


27. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando [do purgatório para o céu]. 


28. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e acobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus. 


29. E quem é que sabe se todas as almas no purgatório querem ser resgatadas? Dizem que este não foi o caso com S. Severino e S. Pascoal. 


30. Ninguém tem certeza da veracidade de sua contrição, muito menos de haver conseguido plena remissão. 


31. Tão raro como quem é penitente de verdade é quem adquire autenticamente as indulgências, ou seja, é raríssimo. 


32. Serão condenados em eternidade, juntamente com seus mestres, aqueles que se julgam seguros de sua salvação através de carta de indulgência. 


33. Deve-se ter muita cautela com aqueles que dizem serem as indulgências do papa aquela inestimável dádiva de Deus através da qual a pessoa é reconciliada com Deus. 


34. Pois aquelas graças das indulgências se referem somente às penas de satisfação sacramental, determinadas por seres humanos. 


35. Não pregam cristãmente os que ensinam não ser necessária a contrição àqueles que querem resgatar ou adquirir breves confessionais. 


36. Qualquer cristão verdadeiramente arrependido tem direito à remissão pela de pena e culpa, mesmo sem carta de indulgência. 


37. Qualquer cristão verdadeiro, seja vivo, seja morto, tem participação em todos os bens de Cristo e da Igreja, por dádiva de Deus, mesmo sem carta de indulgência. 




38. Mesmo assim, a remissão e participação do papa de forma alguma devem ser desprezadas, porque (como disse) constituem declaração do perdão divino. 


39. Até mesmo para os mais doutos teólogos é dificílimo exaltar perante o povo ao mesmo tempo, a liberdade das indulgências e a verdadeira contrição. 


40. A verdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto. 


41. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor. 


42. Deve-se ensinar aos cristãos que não é pensamento do papa que a compra de indulgências possa, de alguma forma, ser comparada com as obras de misericórdia. 


43. Deve-se ensinar aos cristãos que, dando ao pobre ou emprestando ao necessitado, procedem melhor do que se comprassem indulgências. 


44. Ocorre que através da obra de amor cresce o amor e a pessoa se torna melhor, ao passo que com as indulgências ela não se torna melhor, mas apenas mais livre da pena. 


45. Deve-se ensinar aos cristãos que quem vê um carente e o negligencia para gastar com indulgências obtém para si não as indulgências do papa, mas a ira de Deus. 


46. Deve-se ensinar aos cristãos que, se não tiverem bens em abundância, devem conservar o que é necessário para sua casa e de forma alguma desperdiçar dinheiro com indulgência. 


47. Deve-se ensinar aos cristãos que a compra de indulgências é livre e não constitui obrigação.


48. Deve-se ensinar aos cristãos que, ao conceder indulgências, o papa, assim como mais necessita, da mesma forma mais deseja uma oração devota a seu favor do que o dinheiro que se está pronto a pagar. 


49. Deve-se ensinar aos cristãos que as indulgências do papa são úteis se não depositam sua confiança nelas, porém, extremamente prejudiciais se perdem o temor de Deus por causa delas. 


50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas. 


51. Deve-se ensinar aos cristãos que o papa estaria disposto - como é seu dever - a dar do seu dinheiro àqueles muitos de quem alguns pregadores de indulgências extraem ardilosamente o dinheiro, mesmo que para isto fosse necessário vender a Basílica de S. Pedro. 


52. Vã é a confiança na salvação por meio de cartas de indulgências, mesmo que o comissário ou até mesmo o próprio papa desse sua alma como garantia pelas mesmas. 


53. São inimigos de Cristo e do papa aqueles que, por causa da pregação de indulgências, fazem calar por inteiro a palavra de Deus nas demais igrejas. 


54. Ofende-se a palavra de Deus quando, em um mesmo sermão, se dedica tanto ou mais tempo às indulgências do que a ela. 


55. A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias. 


56. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo. 


57. É evidente que eles, certamente, não são de natureza temporal, visto que muitos pregadores não os distribuem tão facilmente, mas apenas os ajuntam. 


58. Eles tampouco são os méritos de Cristo e dos santos, pois estes sempre operam, sem o papa, a graça do ser humano interior e a cruz, a morte e o inferno do ser humano exterior. 


59. S. Lourenço disse que os pobres da Igreja são os tesouros da mesma, empregando, no entanto, a palavra como era usada em sua época. 


60. É sem temeridade que dizemos que as chaves da Igreja, que lhe foram proporcionadas pelo mérito de Cristo, constituem este tesouro. 


61. Pois está claro que, para a remissão das penas e dos casos, o poder do papa por si só é suficiente. 


62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus. 


63. Este tesouro, entretanto, é o mais odiado, e com razão, porque faz com que os primeiros sejam os últimos. 


64. Em contrapartida, o tesouro das indulgências é o mais benquisto, e com razão, pois faz dos últimos os primeiros. 


65. Por esta razão, os tesouros do Evangelho são as redes com que outrora se pescavam homens possuidores de riquezas. 


66. Os tesouros das indulgências, por sua vez, são as redes com que hoje se pesca a riqueza dos homens. 


67. As indulgências apregoadas pelos seus vendedores como as maiores graças realmente podem ser entendidas como tal, na medida em que dão boa renda.


 68. Entretanto, na verdade, elas são as graças mais ínfimas em comparação com a graça de Deus e a piedade na cruz. 


69. Os bispos e curas têm a obrigação de admitir com toda a reverência os comissários de indulgências apostólicas. 


70. Têm, porém, a obrigação ainda maior de observar com os dois olhos e atentar com ambos os ouvidos para que esses comissários não preguem os seus próprios sonhos em lugar do que lhes foi incumbido pelo papa. 


71. Seja excomungado e maldito quem falar contra a verdade das indulgências apostólicas. 


72. Seja bendito, porém, quem ficar alerta contra a devassidão e licenciosidade das palavras de um pregador de indulgências. 


73. Assim como o papa, com razão, fulmina aqueles que, de qualquer forma, procuram defraudar o comércio de indulgências. 


74. Muito mais deseja fulminar aqueles que, a pretexto das indulgências, procuram defraudar a santa caridade e verdade. 


75. A opinião de que as indulgências papais são tão eficazes ao ponto de poderem absolver um homem mesmo que tivesse violentado a mãe de Deus, caso isso fosse possível, é loucura. 


76. Afirmamos, pelo contrário, que as indulgências papais não podem anular sequer o menor dos pecados veniais no que se refere à sua culpa.


77. A afirmação de que nem mesmo S. Pedro, caso fosse o papa atualmente,poderia conceder maiores graças é blasfêmia contra São Pedro e o papa. 


78. Afirmamos, ao contrário, que também este, assim como qualquer papa, tem graças maiores, quais sejam, o Evangelho, os poderes, os dons de curar, etc. como está escrito em 1 Co 12. 


79. É blasfêmia dizer que a cruz com as armas do papa, insignemente erguida, equivale à cruz de Cristo. 


80. Terão que prestar contas os bispos, curas e teólogos que permitem que semelhantes conversas sejam difundidas entre o povo. 


81. Essa licenciosa pregação de indulgências faz com que não seja fácil, nem para os homens doutos, defender a dignidade do papa contra calúnias ou perguntas, sem dúvida argutas, dos leigos. 


82. Por exemplo: por que o papa não evacua o purgatório por causa do santíssimo amor e da extrema necessidade das almas - o que seria a mais justa de todas as causas -, se redime um número infinito de almas por causa do funestíssimo dinheiro para a construção da basílica - que é uma causa tão insignificante? 


83. Do mesmo modo: por que se mantêm as exéquias e os aniversários dos falecidos e por que ele não restitui ou permite que se recebam de volta as doações efetuadas em favor deles, visto que já não é justo orar pelos redimidos? 


84. Do mesmo modo: que nova piedade de Deus e do papa é essa: por causa do dinheiro, permitem ao ímpio e inimigo redimir uma alma piedosa e amiga de Deus, porém não a redimem por causa da necessidade da mesma alma piedosa e dileta, por amor gratuito? 


85. Do mesmo modo: por que os cânones penitenciais - de fato e por desuso já há muito revogados e mortos - ainda assim são redimidos com dinheiro, pela concessão de indulgências, como se ainda estivessem em pleno vigor? 


86. Do mesmo modo: por que o papa, cuja fortuna hoje é maior do que a dos mais ricos Crassos, não constrói com seu próprio dinheiro ao menos esta uma basílica de São Pedro, ao invés de fazê-lo com o dinheiro dos pobres fiéis? 


87. Do mesmo modo: o que é que o papa perdoa e concede àqueles que, pela contrição perfeita, têm direito à remissão e participação plenária? 


88. Do mesmo modo: que benefício maior se poderia proporcionar à Igreja do que se o papa, assim como agora o faz uma vez, da mesma forma concedesse essas remissões e participações 100 vezes ao dia a qualquer dos fiéis? 


89. Já que, com as indulgências, o papa procura mais a salvação das almas do que o dinheiro, por que suspende as cartas e indulgências outrora já concedidas, se são igualmente eficazes? 


90. Reprimir esses argumentos muito perspicazes dos leigos somente pela força, sem refutá-los apresentando razões, significa expor a Igreja e o papa à zombaria dos inimigos e desgraçar os cristãos. 


91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido. 


92. Fora, pois, com todos esses profetas que dizem ao povo de Cristo: "Paz, paz!" sem que haja paz! 


93. Que prosperem todos os profetas que dizem ao povo de Cristo: "Cruz! Cruz!" sem que haja cruz! 


94. Devem-se exortar os cristãos a que se esforcem por seguir a Cristo, seu cabeça, através das penas, da morte e do inferno; 


95. E, assim, a que confiem que entrarão no céu antes através de muitas tribulações do que pela segurança da paz. 


Postado por José Nilton / http://ministdapalavra.blogspot.com.br/2010_05_01_archive.html